Governo de SP quer intermediar venda da Ford em São Bernardo

09:33 h

Dois dias após anunciar que até o fim do ano vai encerrar todas as suas atividades industriais em São Bernardo do Campo, a Ford ganhou um dublê de corretor que vai tentar vender a operação para outra montadora. Após reunião na manhã da quinta-feira, 21, com representantes a diretoria da empresa no Brasil, o governador de São Paulo, João Doria, comprometeu-se a buscar um comprador para a unidade fabril.

“O objetivo da reunião foi a preservação de empregos. Foi uma atitude de governo. Fui eu que os procurei. O Governo de São Paulo ajudará a Ford a encontrar um comprador para o parque fabril de São Bernardo”, afirmou Doria.

O governador fez a declaração durante entrevista coletiva logo após o encontro, que além de Doria contou com a participação de Henrique Meirelles, secretário de Fazenda e Planejamento do Estado, Lyle Watters, CEO da Ford América do Sul, Rogelio Golfarb, vice-presidente de assuntos governamentais, comunicação e estratégia da montadora, e Orlando Morando, prefeito de São Bernardo. Nenhum representante dos trabalhadores foi convidado.

Doria informou que, como contrapartida à pretensa corretagem oferecida pelo seu governo, conseguiu dos diretores da Ford a promessa de manter 1,2 mil funcionários que trabalham na sede administrativa instalada no mesmo complexo do ABC Paulista, além de não fazer mudanças ou cortes nas demais unidades paulistas da empresa: a fábrica de motores de Taubaté (hoje com 1.260 funcionários), o campo de provas de Tatuí (250 pessoas) e o centro de distribuição de Barueri (170), que somam assim 2.880 empregos no Estado.

Nesse sentido, não parece haver nenhuma concessão da empresa, que até o momento não demonstra intenção de fechar outras operações no Estado. Muito pelo contrário, há menos de um ano a Ford finalizou investimentos importantes na fábrica de motores e transmissões em Taubaté, com completa modernização de equipamentos e aumento de capacidade para 500 mil unidades/ano, para fazer o motor 1.5 Dragon e câmbio manual MX65 que equipam Ka e EcoSport produzidos em Camaçari (BA). Portanto, aparentemente a empresa não tem intenção de fechar esta planta.

Os maiores prejudicados com a reestruturação da empresa, portanto, são os 1,6 mil quase desempregados que trabalhavam até o início desta semana em São Bernardo nas linhas de produção dos caminhões Cargo e Série F e do hatch Fiesta (sabidamente em fim de vida já há dois anos). Acumulando prejuízos na América do Sul (declarado em cerca US$ 600 milhões no balanço de 2018), a Ford decidiu parar de fazer esses veículos no Brasil e, por consequência, encerrar atividades em sua mais antiga unidade industrial no País, adquirida da Willys-Overland em 1967.

Embora tenha prometido à Ford se empenhar para encontrar um comprador “nacional ou internacional” para a fábrica de São Bernardo a partir da segunda-feira, 25, o governador não se comprometeu em manter os empregos da unidade: “O governo não fará imposições à compradora. Nós buscaremos uma solução de mercado ao lado da Ford”, disse Doria, que embora não tenha conseguido nenhum recuo aparente da empresa, classificou o encontro como “positivo”.

A própria Ford admitiu que ao longo do ano passado tentou vender a fábrica, sem sucesso – rumores de mercado indicavam que houve negociações infrutíferas com a fabricante de caminhões DAF. Portanto, parece difícil a perspectiva de se encontrar um comprador agora. “A indústria automotiva está vivendo uma mudança global. Tivemos a ideia de trabalhar juntos para uma alternativa em relação à unidade fabril. Acharemos uma solução criativa para a instalação”, afirmou o secretário estadual de Fazenda e Planejamento, Henrique Meirelles, ex-ministro da Fazenda no mandato-tampão de Michel Temer e ex-presidente do Banco Central na gestão do presidente Lula.

SINDICATO VAI À FORD NOS EUA E PROMETE RESISTIR

Em comunicado, o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC confirmou que representantes da entidade vão à sede da Ford em Dearborn, nos Estados Unidos, onde serão recebidos pela direção mundial da companhia para discutir o futuro da fábrica de São Bernardo. A reunião foi solicitada pelo sindicato logo após o anúncio de fechamento da planta, na terça-feira, 19. A data do encontro está sendo acertada entre os participantes e deverá ser definida nos próximos dias.

O presidente do sindicato, Wagner Santana, lamentou que representantes dos trabalhadores não foram convidados para o encontro entre diretores da empresa e membros do governo de São Paulo. Na quinta-feira o sindicalista se reuniu com a procuradora do Ministério Público do Trabalho de São Bernardo, Sophia Villela de Moraes e Silva, para discutir a situação dos empregados da Ford. Ele afirma que a entidade vai buscar de diversas formas reverter a decisão da companhia.

“Vamos à matriz discutir com a direção mundial, conversamos com prefeito da cidade, teríamos conversado com o governador na manhã de hoje se ele tivesse convidado a representação dos trabalhadores para participar, já que a pauta envolvia o futuro de milhares de metalúrgicos. Não vamos desistir de manter uma empresa com essa importância em nossa região”, destacou Wagner Santana.

O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC confirmou que foi informado sobre o fechamento da fábrica da Ford em São Bernardo somente na terça-feira, 19, durante reunião solicitada pela entidade com o presidente da empresa, Lyle Watters, pouco antes de a empresa divulgar a decisão à imprensa.

“Nossa direção foi ao encontro para discutir um calendário de negociações para a vinda de novos produtos, conforme estava previsto no acordo firmado em 2017, mas de início a empresa comunicou o fechamento, que seria em seguida anunciado para a imprensa. Deixamos a reunião para fazer de urgência uma assembleia com os trabalhadores, para que eles não fossem avisados pela internet, o que seria um absurdo. Tem gente lá com 25, 28 anos de casa”, relata Santana.

Após o anúncio, o sindicato orientou os trabalhadores a irem para casa e só retornarem à fábrica na próxima terça-feira, 26, quando haverá uma nova assembleia, em frente à empresa, às 6h30. Desde então a planta está parada. “Não tinha clima para ninguém voltar ao trabalho, até por uma questão de segurança. Estamos fazendo nossas articulações e avaliando de que forma se dará nossa mobilização e nossa resistência. Mas ela haverá e será dura”, reforçou o sindicalista.

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